Preconceito, 5 km & Caminhada

Se perguntarem se você é preconceituoso, tenho certeza que dirá que não. A palavra soa até ofensiva. Mas quase todo o ser humano é preconceituoso, pois o pré conceito significa ter uma ideia antecipada de algo. Qualquer coisa que nos falarem iremos tentar imaginar, e visualizar, e ter alguma ideia rascunhada sobre aquilo. Portanto, estaremos formando uma imagem antecipadamente, um preconceito. Dito isso, vou contar aqui alguns preconceitos que tinha e que a vida me ensinou a abandoná-los.

Já corri inúmeras provas, desde as de curta distância até maratonas. Em épocas de treinos para maratonas costumava desdenhar das provas curtas. Não entendia como alguém podia se inscrever para uma prova de 5 km, por exemplo. Nem mesmo de 10 km. Costumava dizer que não tirava o carro-corpo da garagem por menos de 21 km, que aquelas pequenas distâncias eu fazia como treino leve. Porém, depois de fazer várias corridas longas, passei a curtir treinos e provas curtas, sem tempo, sem stress, apenas para manter a saúde. São provas divertidas, em clima de família e confraternização. Em uma delas cheguei a encontrar inclusive um antigo amigo, que não via há anos, e por pouco não ficamos batendo papo durante a prova.

Assim também foi com a caminhada. Tive um problema de saúde e fiquei mais de mês sem poder fazer nada de exercício. O médico recomendou que eu voltasse de leve, e por isso resolvi caminhar. Estou dando boas e longas caminhadas e descobri que, diferente da corrida, a gente pode observar melhor as coisas, as pessoas e descobrir a cidade na caminhada. Tudo passa mais devagar, enquanto o pensamento voa. É fantástico! E eu, que passava correndo por caminhantes e não entendia como alguém se contentava com aquilo, em vez de correr, que considerava muito mais legal?!

Para finalizar, posso dizer que hoje, quebrando esses preconceitos, me sinto mais livre. Posso escolher correr uma maratona, ou meia, ou 5km, ou caminhar… ou, quem sabe, não fazer nada. Preconceito, todo mundo tem, mas trabalhar o preconceito é o que nos liberta. Às vezes, nem é preciso optar. Podemos ficar com todas as alternativas válidas. Na corrida, na caminhada e na vida.

“Minha corrida é movida pelo amor”, por Paula Menezes

Paula Menezes nunca foi fanática por corrida. Considerava, inclusive, o esporte uma opção para quem não tinha habilidade para outros. Em um congresso, nos Estados Unidos, ela conheceu uma equipe de corrida voltada para uma causa da saúde, sua área de atuação. De volta ao Brasil, Paula abraçou com ainda mais força a causa da Hipertensão Pulmonar e se viu às voltas com os preparativos para a sua Ultramaratona de 75 km. A primeira e última, segundo a história de superação que ela mesma conta em “Minha Corrida”, para o Blog de Corrida. Participe! Mande você também a sua história para: blogdecorrida@gmail.com

 

Por Paula Menezes

A prova de 75km foi em outubro e somente agora, em fevereiro, consegui parar e escrever sobre a minha trajetória. Acho que foi tudo tão intenso e desgastante que eu precisava de um tempo para organizar as ideias.

Todos que me acompanham na Abraf sabem da minha entrega a esta causa. Por mais difícil (algumas vezes, quase impossível) que seja conciliar toda a minha rotina, pessoal e profissional, com a Abraf, sempre que me proponho a realizar um projeto da associação, mergulho de cabeça. E, com o Team PHenomenal Hope Brasil, não foi diferente.

A proposta do projeto era uma loucura: treinar 11 meses para conseguir correr 75km. Olhando para trás, com a experiência que tenho hoje em corrida (pouca ainda, mas intensa), por tudo que vivi, li e conversei com outros atletas, entendo que o processo de amadurecimento para alguém se tornar um ultramaratonista leva muito tempo. Certamente, não recomendo a ninguém seguir o atalho e querer, de cara, tornar-se um ultramaratonista. Não é saudável, mental e fisicamente. Como dizem, a ignorância é uma bênção mesmo.

Apesar de nunca ter sido sedentária, a modalidade “corrida”nunca foi meu esporte. De forma preconceituosa, assumo, achava a corrida a opção do ex-gordinho, que nunca se deu bem com bola, do inseguro, que nunca teve grande aptidão para educação física e, de repente, corre mais do que seus amigos, ou do carente, que não tem sempre uma boa programação para sexta à noite, e arruma uma turminha para correr no sábado de manhã. rsrs Não conseguia entender como alguém fazia tanto esforço pela corrida “por prazer”.

E, como nessa vida a gente paga a língua mesmo, em pouco tempo me vi abdicando das sextas-feiras, das festas, dos encontros de amigos, para o quê? Para correr. Eu, particularmente, sou muito disciplinada e focada em tudo que realizo. Não preciso amar algo para me dedicar a realizá-lo. Quando se trata de uma tarefa necessária, eu não me importo se gosto ou não. Simplesmente realizo. E, claro, com a corrida não foi diferente. Nunca gostei de correr, mas, a partir do momento que aceitei o desafio, eu simplesmente corria e entregava o meu treino. Não vou negar que, conforme vai-se evoluindo, você vai pegando gosto. Mas não consigo afirmar que a corrida virou uma paixão, porque, durante o ano todo, eu a tratei como uma obrigação.

Por conta do alto volume de treinos, em pouquíssimo tempo, me lesionei e tive fratura por stress nas tíbias. Algumas vezes a dor era tão forte que não conseguia nem caminhar. Em uma situação normal, sem pressão, eu simplesmente daria um tempo da corrida para o corpo se recuperar. Mas, com o relógio correndo contra mim, com poucos meses de treino, com os “75km martelando na minha cabeça”, dia e noite, todas as vezes que a dor vinha, eu me desesperava, com medo da possibilidade de não evoluir a tempo do grande desafio.

Para resolver as dores e as lesões, me consultei com todos os especialistas possíveis, tomei todos os remédios do mercado e comprei várias bolsas de gelo para as dores do pós-treino. Eu praticamente vivia entre ortopedista, fisioterapeuta e osteopata. Foram muitas, muitas consultas. Houve épocas em que melhorava e praticamente não sentia dor. Aí me empolgava nos treinos e logo machucava de novo. Essa montanha-russa durou quase o ano todo.

Faltando uns 3 meses para o grande desafio, após várias sessões de fisioterapia no Instituto Osmar de Oliveira, eu me sentia bem melhor. Estava criando confiança novamente e muito focada. Eu contava os dias e planejava quantos km eu tinha que evoluir a cada semana. Com o cronograma era curto, não podia falhar.

Já que alegria de lesionada dura pouco, 10 dias antes da prova, em um treino de 4 horas na USP, senti uma dor estranha e muito forte no joelho (como uma faca entrando na lateral do direita). Acho que você pode imaginar o tamanho do meu desespero. A lesão na tíbia eu já havia aprendido a lidar, mas ganhar um problema novo a 10 dias da prova era muito azar.

Fiquei arrasada e corri para o médico, que me diagnosticou com atrito da banda iliotibial. A solução mais rápida? Injeção de corticoide, anti-inflamatório e fisioterapia. Logo eu, que tenho pânico de agulha (nunca havia tomado nenhuma injeção que não fosse vacina até então), tive que encarar essa. Fiquei na porta da farmácia dando voltas várias vezes antes de entrar, mas, por ser algo tão necessário, me rendi à injeção na reta final.

Minha confiança foi derrubada, mas eu tinha que me manter focada. Fui à fisioterapia todos os dias, treinava na bike e, pouco a pouco, comecei a me sentir melhor. Eu até estava ficando confiante de novo quando, 3 dias antes da prova, senti uma dor no mesmo joelho, mas do lado de dentro. Fiquei em pânico, sem acreditar naquilo. Já não dava mais tempo de fazer uma fisioterapia intensa e o meu médico só poderia me atender na outra semana (aí já teria passado a prova).

Sem saber o que fazer, decidi ir para um hospital me consultar com um ortopedista. O diagnóstico foi tendinite da pata de ganso. O médico era super conservador e ficou uns 10 minutos tentando me convencer a não correr os 75km. Ele me deu um certo sermão, enquanto eu tentava não chorar e ser educada com ele. Mas chegou a um ponto que eu precisei ser clara: “Deixa eu te explicar uma coisa. Eu treinei o ano todo para a prova. Eu tenho uma ligação emocional que não vai me deixar desistir disso agora. Você está perdendo o seu tempo. Eu não vim aqui para mudar a minha meta, mas para tomar algo forte que me dê uma sobrevida imediata para a corrida. Se você não me der, eu vou de hospital em hospital até achar alguém que me ajude”.

Tomei outra injeção e ganhei uma receita de um anti-inflamatório mais potente do que o que estava tomando. Voltei para casa muito triste. Prestes a encarar o maior desafio da vida, eu estava com fratura por stress na tíbia, atrito da banda iliotibial e tendinite da pata de ganso.

Por incrível que pareça, no dia da prova, eu até me sentia melhor. Como estava sem treinar já há uns dias, não tinha dores.

A poucos minutos da largada, eu estava muito nervosa. Simplesmente não acreditava em tudo aquilo que tinha realizado até aquele momento, duvidava um pouco do meu preparo e sabia que as próximas horas seriam muito difíceis.

Lembro do Ricardo tentando fazer graça para mim na largada, mas ele mesmo estava apavorado e acabei rindo do seu desespero. Ele sempre me apoiou durante todo o processo. Nossas conversas infinitas à noite na cama me davam força, quando eu chorava e ficava arrasada por sentir tanta dor e ter medo de não conseguir atingir o objetivo. Ele celebrou cada vitória minha: quando, nos treinos, completei 10km, 21km, 42km. Ele embarcou comigo nessa loucura e foi fundamental, em todas as etapas, para eu não desistir. A empolgação dele com os equipamentos, roupas, provas me dava energia e transformava o processo em algo mais leve. Mas, naquele momento, ele também estava abalado, e apenas um abraço e um beijo bastaram para eu me sentir apoiada.

Finalmente a buzina tocou e partimos. De uma hora para outra, entrei na prova, foquei e já não estava mais abalada com o nervosismo. O primeiro trecho era na areia e achei tranquilo. Na sequência, veio a serra de Maresias, que é horrível, íngreme e longa. Porém, como eu já sabia o que esperar, me preparei para isso: sofri bem menos do que imaginei.

Subidas nunca foram o meu forte. Mesmo caminhando, perco o ritmo. A maioria das pessoas subiu a serra caminhando, para se poupar para o resto da prova. Além do mais, chovia bastante e o chão estava escorregadio.

Subi, subi, subi, até que vi, finalmente, uma placa: “verifique os seus freios”. Foi a M-A-I-O-R alegria, pois isso significava que a descida havia chegado. E na descida é só soltar o corpo ladeira abaixo. Recuperei bastante o meu tempo, descendo mais rápido, atenta ao chão escorregadio, mas sem medo de soltar o corpo. Lembro da música que estava tocando no ipod: “Don’t stop me now”, do Queen.

Como alegria de lesionada dura pouco, ao final da descida, quando dei uma freada para fazer a curva em direção ao primeiro PC (posto de controle), senti uma fisgada muito forte no joelho. A sensação era de uma faca entrando pelo lado de fora do joelho cada vez que eu tentava correr. Ou seja, a mesma dor que senti na USP. Era o atrito da banda iliotibial me atormentando novamente.

Por alguns segundos, fiquei totalmente em pânico. Não podia acreditar que a lesão não tinha melhorado. Tudo bem que fazia apenas 10 dias que estava em tratamento, mas eu vinha me sentindo bem melhor. O que eu não havia percebido é que, na verdade, nos últimos 10 dias, eu já vinha diminuindo muito o ritmo de treino (para poupar o corpo para a prova). Então é claro que eu não sentia dores, pois praticamente corria apenas de forma leve ou caminhava.

Ainda faltavam 65km para terminar a prova e eu já sentia uma dor insuportável. Comecei a pensar o que eu poderia fazer para contornar aquilo e lembrei que o médico havia me dito que o causador dessa lesão é o movimento repetitivo de alavanca da perna. Isso aumenta o atrito e causa a lesão. Ele exemplificou: uma pessoa sedentária faz essa alavanca, por exemplo, 200 vezes ao dia. Uma pessoa que treina como eu faz a alavanca 3000 vezes ao dia. É óbvio que o desgaste é maior.

Com essa informação guardada na cabeça, tive a ideia de evitar dobrar o joelho direito, pois, assim, não faria o atrito e não sentiria dor. Dei os primeiros passos com a perna direita reta e apenas alavancando com a esquerda e percebi que a dor amenizava. Pronto, era assim que eu ia correr os próximos 65km, meio torta, ainda com dor, mas, pelo menos, eu não desistiria da prova.

Em se tratando de corpo humano, nem tudo funciona como queremos. Às vezes eu acabava jogando peso na perna machucada, dobrando o joelho e doía muito. Mesmo eu travando a perna na sequência, a dor não passava na hora. E aí comecei a entoar um mantra para me acalmar: “a mente controla o corpo“. Eu repetia sem parar. Não sei se era o mantra ou o corpo, mas a verdade é que, em muitos momentos, eu esquecia da lesão e não sentia nada.

Quando completei 20km, eu comecei a me sentir muito mal do estômago. Era visível que ele estava estufado, pois dava para ver o inchaço pela blusa. Minha barriga começou a inflar e nada digeria. Como minha nutricionista havia dado 2 opções de suplemento com a mesma equivalência de carboidratos (2 bisnaguinhas e meia ou 1 carbogel manipulado de acordo com a minha composição corporal), eu decidi evitar a bisnaguinha e tomar o gel. Assim, me manteria suplementada a cada meia hora como planejado, mas conseguiria diminuir o inchaço até que tudo comido fosse digerido.

Segui tomando o gel, mas, mesmo assim, a barriga e o desconforto só aumentavam. Eu percebia que a comida estava na garganta, sabe? Não sei se essa indigestão foi fruto de nervosismo ou do Imosec que tomei antes da prova, ou dos dois juntos. Só sei que meu corpo não digeria mais nada.

Quando completei 30km, a minha equipe de apoio não me encontrou no PC. Isso significava correr até o km42 sem água e com apenas 1 carbogel extra, acompanhada de indigestão e dores terríveis no joelho. Comecei a pedir “doações” pelo caminho, e ganhei 1 gatorade e 1 pouco de água. Ao invés de me desesperar, naquele momento, enxerguei a situação como algo positivo. Pensei: “quando chegar no próximo PC, terei completado 1 maratona, com muita dor, muito mal estar e mal suplementada. Isso só vai me fortalecer ainda mais”.

Eram 14km de areia apenas. Eu, as dores e nada. A certa altura fui tomar o gatorade e vomitei. Tomava água e vomitava. Nada parava dentro de mim. Então comecei a pensar como contornar aquela situação. Lembrei da minha nutricionista dizendo que, mais do que seguir à risca o planejamento alimentar, eu tinha que escutar o meu corpo. Portanto, ao invés de me alimentar a cada 30 minutos como planejado, eu decidi me alimentar a cada 45 minutos, para tentar dar mais tempo à digestão.

A sorte foi que o Heitor, que estava fazendo apoio para o Ricardo de bicicleta, pode voltar e me dar um remédio para indigestão e água. Aquilo aliviou um pouco, mas longe de estabelecer o status quo.

Nos momentos de maior desespero, eu entoava meu mantra e lembrava da razão daquilo tudo. Mentalizava que o meu propósito era muito maior que a minha dor, e que havia pessoas maravilhosas (pacientes, amigos e familiares) me esperando na linha de chegada. Era simplesmente inaceitável me render àquela adversidade. Eu seguia a cada passo me fortalecendo mais.

A minha playlist era a mesma dos treinos. Então, ao ouvir as músicas, buscava resgatar tudo que havia passado no último ano me preparando para o desafio, o que aquele gesto representava para os pacientes, quantas pessoas maravilhosas foram colocadas na minha vida, quantas mais se engajaram com o projeto. Lembrava da minha mãe, sempre guerreira, dizendo que ia vencer a Hipertensão Pulmonar, pois ela era muito maior que o pulmão. Imaginava o que ela sentiria ao me ver cruzando a linha de chegada, quão orgulhosa ela estaria se pudesse presenciar isso.

Pouco a pouco, ia avançando, sozinha, refletindo… O mar me traz muita reflexão. Quando minha mãe morreu, eu e meu pai fomos para o RJ passar uns dias, e eu ficava horas na praia, sozinha, olhando para o mar. Como a prova tem muitos trechos à beira mar, foram várias horas refletindo sobre a vida e o propósito daquela corrida.

A cada km, o mal estar físico só aumentava. No km50, eu estava à beira de um colapso: muito inchada, sem conseguir me alimentar, com dores em tudo. Eu não percebia que a minha saúde estava debilitada. Realmente não passou pela minha cabeça que a minha vida poderia estar em risco.

Acho que o fato de não admitir desistir me cegou. Eu sempre dizia que só pararia de correr se morresse. E levei à risca na prova. O meu pensamento sempre foi que aquilo tudo era para honrar os pacientes e passar coragem a eles. Eles não podem desistir, pois a desistência significa a morte. Eu, portanto, não poderia me dar a chance de parar. Eu tinha que vencer os meus limites, assim como os pacientes. Eu sabia que cruzar a linha os faria se sentir amados, representados e daria a eles um novo fôlego para continuar lutando diariamente. Eu precisava proporcionar isso a eles. Fazê-los entender que estou junto nesta luta, de corpo e alma.

Apesar de eu não estar correndo tão rápida, me encontrava muito ofegante. A Marina entrou para ser minha pacer nos últimos 25km e foi me acalmando. A entrada dela foi perfeita, pois pude fazer a maior parte da prova sozinha, com minhas divagações sobre a vida, mas, à beira de um colapso, pude delegar a alguém a preocupação com a prova. Lembro de falar para ela que ditasse o ritmo, e pedi apenas que me entregasse a tempo.

Assim ela foi dando as coordenadas de quando correr, quando caminhar etc. Ela foi me incentivando, sendo solícita aos meus pedidos de água, comida… No km65, eu praticamente não conseguia mais falar. Estalava os dedos quando queria chamá-la e fazia o sinal do que queria: água, comida, baixar o ritmo etc. A dor era tanta que a minha vontade era cair deitada no chão. As articulações todas doíam, especialmente o quadril, pelo fato de ter corrido toda desequilibrada para minimizar a dor no joelho. A pele, de tão inchada (terminei a prova com uns 7kg a mais) parecia que ia rasgar, de tanto que sentia esticada. Era como se o meu corpo não coubesse na minha pele. TUDO doía intensamente, do queixo aos pés, encharcados de lama e chuva.

Diante de tanto sofrimento, eu apenas queria minimizar o tempo para tudo acabar. Mas eu simplesmente não conseguia mais correr. Os joelhos não dobravam, os braços e mãos estavam inchados demais e eu não conseguia fazer o movimento para correr, e os meus pensamentos estavam todos desordenados. Às vezes eu chorava sem perceber, às vezes me perdia nas contas de quantos km faltavam. A sensação que eu tinha era de estar sendo levada, de alguma forma, sozinha, em uma praia cinzenta, chuvosa, sem enxergar o pórtico da chegada. Eu apenas ia, na esperança de, a cada passo, poder enxergar a razão de tudo aquilo: os pacientes.

O infinito da praia era desesperador. As dores eram horríveis. Naquele ponto, já não era mais o joelho ou estômago. Era um mal estar geral, uma rigidez no corpo que, mais tarde, no hospital, descobri se tratar de algo muito sério e letal chamado rabdomiólise. Foi doloroso e inexplicavelmente transformador. Eu não pensei em desistir, mas desejava, a cada segundo, poder enxergar o pórtico de chegada, para poder abraçar todos.

E, assim, vencendo todas as barreiras, ao lado da Marina, que seguia carregando minha água, minha comida e me transmitindo coragem o tempo todo, avistei, de longe, uma pessoa acenando para nós. Era a Cris Uehara, sorridente, feliz. Apesar de eu estar quase inconsciente naquele momento, lembro exatamente das palavras dela: tem um monte de gente te esperando lá. Foi o que bastou para eu entender que eu estava quase “lá”, no fim da jornada, na cereja do bolo, no abraço e no sorriso que tanto sonhei.

Poucos minutos depois, vi o Ricardo, meus amigos e a equipe de apoio, que vieram filmando e correndo comigo. Olhei para o relógio da prova e li “10 horas, 50 e poucos minutos”. Nós tínhamos 11 horas para terminar e chegamos na risca. Foi um alívio.

Quando passei pelo pórtico, desabei a chorar, apoiada na grade. Eu nem tinha visto que os pacientes estavam mais à frente na área coberta. Eu só chorava,acabada, com muita dor, física e emocional. Quando levantei minha cabeça, ouvi uma multidão gritando “Paula, Paula, Paula”. Até hoje choro de lembrar. Lá estavam eles, a razão de tudo, a minha força nos 75km, os pacientes e familiares, que saíram de diversos locais do Brasil, apenas para nos prestigiar. Faltam palavras para verbalizar o que eu senti. A rigidez do meu corpo não me deixava mais dar um passo, a fortaleza da minha mente já havia desmoronado, e eu chorava sem parar. Cada um deles se aproximou para me dar um abraço e agradecer.

Sem dúvida, uma das emoções mais fortes que já senti. A hipertensão pulmonar levou a minha mãe para sempre, mas me trouxe muitas pessoas maravilhosas. Posso dizer que me senti inteiramente amada naquele momento, e só tenho a agradecer por ter tantas pessoas ao meu lado. Não foram apenas pacientes, mas familiares, amigos e pessoas que nem sabiam o que era hipertensão pulmonar até conhecerem o Team PHenomenal Hope Brasil. Não há nada mais incrível do que sentir a força da união e do amor. É transformador, acredite.

História de vida e superação em “Minha Corrida” – Mara Okiyama

Mara Carla de Oliveira Okiyama tem bons motivos para comemorar cada chegada ao término de uma corrida. Persistente, Mara correu atrás de uma vida saudável e chegou lá. É ela quem nos conta sua história de luta e superação. Participe! Mande você também a sua história para: blogdecorrida@gmail.com

Por Mara Carla de Oliveira Okiyama

Minha história de amor com a corrida começou em 2011 depois de um processo grande de emagrecimento após longos anos de sedentarismo e alimentação incorreta.
Quando meu filho mais velho estava com 3 anos de idade percebi que estava ficando muito cansada pelo simples fato de agachar para brincar com ele. Foi aí que resolvi tomar uma atitude e emagrecer. Comecei o processo e perdi 15 kg, estava feliz, mas com o corpo muito flácido e queria muito fazer uma lipoaspiração. Meu marido não deixou e ainda disse que se eu quisesse perder a barriga de verdade que começasse a correr (ele é militar e me ensinou a correr).
No começo não conseguia correr nem 40 segundos e achava que iria morrer! Mas aos poucos fui evoluindo e no meio do ano já tinha feito minha primeira prova de 5 km! Logo fiz 10 km e a vontade de correr mais só foi crescendo. Consegui emagrecer ao todo 27 kg.
Mas, no começo de 2012 eu engravidei de novo e então voltei a engordar. Foram 20 kg na segunda gestação… Parei de correr e não emagreci nada após a gravidez. Quando o bebê parou de mamar (no meio do ano de 2013) voltei pra academia, musculação e novamente pra reeducação alimentar, mas ainda estava muito pesada pra correr. Só no final de 2013 que me inscrevi novamente para uma prova de 5 km, que terminei em 32′.
De lá pra cá não parei mais: já perdi as contas de quantas corridas de 5 e 10 km fiz. Minha maior superação foi completar 2 meias maratonas e o projeto para este ano de 2017 é aumentar o número de meias maratonas no meu Curriculum.

É muito bom descobrir que você sozinha pode alcançar seus sonhos e se desafiar cada vez mais em busca de outros sonhos. ;)

Eu vou correr 5k com você!

A CORRIDA TROUXE GRANDES AMIZADES PRA MINHA VIDA.

Vamos correr 5k juntos? Eu, Carlo Manfroi, do Blog de Corrida, descobri nesses anos todos de atividade e de escrita que a corrida transforma a vida das pessoas. Há bastante tempo praticando, conheci muita gente legal, no Brasil e no mundo. Gente que mudou completamente sua vida após começar a correr, deixando de fumar, beber e emagrecendo mais de 30 kg com a corrida e uma alimentação equilibrada. Por isso, faço um convite: vamos ficar de bem com a vida e correr 5k juntos? Deixe seu comentário em nossa Fan Page ou escreva um email para blogdecorrida@gmail.com com seu nome, algum contato e cidade. Quando formos aí, entraremos em contato! E se você for de Floripa, manda um alô também. Vamos correr juntos por aqui! Um grande abraço e ótimas corridas!

Abaixo, os 5k com o amigo Adi David Silva.

Mais 5k concluídos, com o amigo César Cupertino!

Com Odinei Rosa, na Beira Mar de Floripa.

Com meu filho Pedro (ueba!), em 15/02/2017.

Com a amiga Silvia Lopes, da equipe Freedom, em 16/02/2017.

Alexandre “Louco da Madrugada” Andrade

Ele parou de secar o copo e secou o corpo.

Conversei com o motoboy Alexandre Andrade, que pesava 148 kg e emagreceu 48 kg desde que largou a vida sedentária e começou a correr. Por falta de tempo, Alexandre acorda as 3h30 da manhã para iniciar os treinos, o que rendeu o apelido de Louco da Madrugada. O apoio da esposa Luciana e das filhas Mariana (16), Gabrielhe (14) e Emily (12) foi fundamental para sua mudança de vida.

Confira nosso bate-bapo nos áudios abaixo.

Blog de Corrida: Como foi essa história de deixar de secar o copo e começar a secar o corpo?

Blog de Corrida: Conta como é a sua rotina de treinos. Você acorda todos os dias as 3:30 para correr? Corre quanto? Come antes de sair?

Blog de Corrida: E teus treinos costumam ser de quantos Km? Não é perigoso correr na madruga? Nunca aconteceu nada?

Blog de Corrida: E aquele sinal de silêncio, com o dedo na boca, que está virando marca registrada, veio da onde?

Alexandre Andrade: Sempre faço o sinal do silêncio, pois eu corro sempre de madrugada e este gesto é característica de não fazer barulho para que não acordem os que dormem…

 

“Minha Corrida”, história do leitor

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A Amanda Gomes é de São Paulo, tem 33 anos, é casada e tem uma filha de 14 anos. Ela trabalha como secretária e passou por graves problemas de saúde até decidir correr. É ela quem conta um pouco da sua história de superação aqui pra gente. Participe! Mande você também a sua para: blogdecorrida@gmail.com 

Por Amanda Gomes
 
A três anos comecei a mudança na minha vida. No final de 2010 eu realizei uma cirurgia, retirei a safena da perna esquerda, e no pós-operatório tive complicações. Tive uma trombose, consequentemente uma embolia pulmonar, fiquei internada na UTI, durante dez dias… E mesmo depois de tudo isso, eu continuei acima do peso, mesmo sabendo de todos os riscos, não dei muita importância.
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A três anos atrás, com quase 100 quilos e 1,66  decidi mudar, troquei de departamento na empresa onde trabalho, e as meninas do setor só falavam em academia. Aquilo de alguma forma foi me abrindo os olhos, mexeu comigo. Estava com gordura no fígado, uma gastrite (quase úlcera ) e teria riscos de ter trombose novamente, uma saúde péssima. Foi quando os médicos e minha sogra me deram um choque de realidade.
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Comecei a pesquisar academias, me matriculei e comecei a praticar muay thai, que hoje é a minha grande paixão, comecei a participar de provas de rua de corrida, corro até hoje, amo muito, e treino sempre para melhorar. Um pulmão que quase parou, hoje se dedica a melhorar sempre.
 
A mudança tem que partir de nós mesmos, não adianta ninguém falar/insistir. Tem que dar aquele Tchan!
 
Hoje ainda passo com a nutricionista, e eliminei 21 quilos nesses três anos, e todos os problemas de saúde se acabaram, auto estima lá em cima. Luto diariamente para eliminar os 10 quilos para chegar na minha meta. Treino todos os dias, tiro um dia para descanso. Não importa o quanto tem que demorar, pois de qualquer forma o tempo vai passar mesmo, pelo menos estou melhor que ontem.
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O emagrecimento vai além da estética, é SAÚDE, e enquanto não nos dermos conta disso, ficamos no vicio da má alimentação. Não é apenas cuidar da dieta, e sim um estilo de vida que não pode ser deixado de lado por momentos de prazer (comidas, doces). Quando estou nas provas de corrida, olho para o céu e agradeço a Deus a oportunidade de mudar a minha vida, pois os dias que passei internada, não podia levantar da cama nem para ir ao banheiro, pois poderia ter um AVC, ou uma parada cardíaca, todo o corpo ficava dolorido por permanecer deitada, e hoje estou aí nas pistas da vida, mudando a minha história de vida.
 
Gostaria de incentivar e ajudar pessoas que estão na mesma situação que eu me encontrava, mas hoje estou buscando parcerias para continuar em busca dos meus objetivos.

Olimpíadas 2016 – Corrida e Esgrima

lilia-sentinger-manfroi-esgrimista-olimpiadas-blog-corrida

A Corrida foi o primeiro esporte das Olimpíadas da Era Antiga, que posteriormente deu espaço para toda essa série de esportes maravilhosos que podemos acompanhar, torcer e vibrar atualmente. No início, a prova era chamada de Stadium, e os atletas corriam nus a distância do estádio de Olímpia, que era de aproximadamente 192 metros. Mais tarde, as roupas foram aparecendo e as distâncias aumentando.

Já a Esgrima está presente desde 1896, a primeira edição dos jogos modernos em Atenas. Mas o que fez esse esporte ter nossa atenção especial aqui no Blog de Corrida é a personagem Lília Sentinger Manfroi, minha mãe (em destaque na foto), campeã brasileira de esgrima em 1967 e que disputou os jogos Panamericanos. Aproveito este 8 de maio para desejar todo carinho a ela e às mães corredoras, esportistas ou não, leitoras do blog.

Curiosidade:

Você sabia que os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, serão a primeira edição deste evento em território sul-americano? Pois é, estava mais do que na hora não é mesmo? Então vamos curtir bastante o nosso evento e em breve atualizaremos você com mais novidades por aqui. Boa corrida! Touché!

Corrida na Praia do Pepê

Correr à beira-mar é uma das minhas paixões, principalmente com um mar desses da Praia do Pepê, na Barra da Tijuca. Água clara, limpa e quente. Participei de um grande evento internacional relacionado à produção de conteúdo audiovisual e mídias digitais, o Rio Content Market, que aconteceu no Windsor Barra, de 25 a 27 de fevereiro de 2015. Estive representando a agência Qualé Digital e o Carlo Manfroi Story Studio no evento, motivo pelo qual quase não sobrou tempo para nada além dos compromissos profissionais. Estava tão consumido pela agenda do evento que quase não consegui dar aquela escapada para a corrida, mesmo estando em um hotel na beira da praia: as atividades iam até tarde e recomeçavam cedo. No último dia, porém, não aguentei só ficar olhando para aquele mar e o calçadão.

corrida praia pepê barra da tijuca RJ carlo manfroi blog 2015

Fui correr e ganhei de brinde um excelente banho de mar. Valeu cada passada, valeu cada mergulho. Preciso mais disso. Cada vez mais! Não deixe a agenda afastar você da corrida, faça a corrida fazer sempre parte de sua agenda, onde quer que você vá. Afinal, quem corre conhece mais lugares do que quem fica parado, não é mesmo? Boa corrida!

Corrida na Beiramar de Florianópolis

corrida unimed beiramar florianopolis carlo manfroi blog de corrida emmovimento

Essa quarta-feira de cinzas não teve nada de ressaca, e sim muita corrida na Beiramar de Florianópolis. Voltamos aos treinos junto à equipe da Unimed EmMovimento e Gustavo Pinto para curtir esse excelente fim de tarde fazendo o que dá muito prazer: botando o pé na pista! Agora é separar umas horas a mais para fazer um longão no fim de semana. E vamo que vamo! #corrida

 

Corrida na praia

BLOG DE CORRIDA treino na praia carlo manfroi 4 ilhas 05 02 15 run marathon

O treino de hoje foi especial: ao ar livre, em contato direto com a natureza. O tempo ajudou também, pois o sol não apareceu, o que garantiu menor desgaste. Em pleno verão, confesso que correr com sol forte é um grande desafio. Procuro evitar os horários de pico, fazendo meus treinos pela manhã cedinho ou no final do dia e à noite. A diferença de rendimento é incrível entre um dia de sol forte e um dia nublado. Já comprovei isso na performance do Nike Running. Mas o que eu quero mostrar pra vocês é o vídeo que fiz dessa praia espetacular. Bom proveito!

Abraços e até a próxima Corrida na Praia, por que é o que temos para o verão!

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